segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 DE ABRIL


(na figura cartaz de Vieira da Silva

Elsa Ligeiro, editora da "Alma Azul", a propósito do 25 de Abril:

A história é conhecida.
Salazar recusou a nacionalidade portuguesa a Arpad Szenes, apátrida, pela sua ascendência judaica, e marido da pintora Maria Helena Vieira da Silva.

A pintora, que nasceu em Portugal, em 1908, morreu com passaporte francês para acompanhar o marido quando, em 1956, o governo de França tornou cidadão francês o meteco Arpad que tinha nascido na Hungria e desde jovem vivido em vários países, um pouco por todo o mundo.Também em Portugal, onde esteve com a mulher, com quem partilhou o resto da sua vida depois do casamento, em 1930.

Há um filme de José Álvaro Morais, um dos maiores cineastas portugueses, que apesar de ter nascido em Coimbra, cresceu na Covilhã, onde está sepultado, que conta esta bela história de amor entre os dois. O filme tem como título Ma Femme Chamada Bicho. Durante os primeiros dez minutos até parece um filme sobre Arpad Szenes. É ele que fala de Viena e Berlim e do seu ambiente totalitário no início do século XX, pouco antes da I Grande Guerra Mundial (sábias as suas palavras, como inteligentes e cáusticas serão mais tarde quando fala de Portugal).

Mas aparece Vieira da Silva, a sua musa, e ela toma conta do filme. Passa a uma história de amor extraordinária. Talvez mais bela porque reúne um talentoso artista que encontra um génio. Até na postura.

O filme é de 1976, o que torna possível escutar da boca de Maria Helena Vieira da Silva como nasceram os cartazes sobre o 25 de Abril de 1974 que fixarão para sempre a imagem de um país com uma revolução ímpar. A forma como Vieira da Silva o conta, com uma felicidade genuína e desprendida, é um dos momentos mais sublimes do filme. Só superado pelas imagens em que a pintora tenta continuar um quadro em frente à câmara e, depois de duas pinceladas, abandona as tintas dizendo: “Não consigo, não parece autêntico, não é autêntico”. Nada há de mais autêntico para Vieira da Silva que os seus quadros, onde com o seu génio condensa cidades. Mas fazê-lo diante de uma câmara é uma ilustração que não lhe cabe. Exemplar.

O que não a impede de no final do filme, numa verdadeira pantomínia, pintar a cara de negro e de mão dada com Arpad Szenes, caminharem, como dois adolescentes apaixonados, diante da câmara de José Álvaro Morais. Num final verdadeiro e feliz. Como devem ter as grandes histórias.

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