Gonçalo M Tavares, José Eduardo Agualusa, Clara Ferreira Alves, entre outros... A cada autor foi destinado um
período de tempo histórico e cada capítulo tem como pivô a personagem
Carlos da Maia. Cada um será responsável por o encadear da história até
ao ano de 1973, em vésperas do 25 de Abril.
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sexta-feira, 28 de junho de 2013
segunda-feira, 17 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Fernado Pessoa faria hoje 125 anos
Fernando Pessoa & Ofélia Queiroz - Correspondência amorosa completa: obra lançada hoje
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segunda-feira, 27 de maio de 2013
Aquilino Ribeiro (1885-1963), um anarquista no Panteão Nacional
Este ano assinalam-se os 50 anos da morte de Aquilino Ribeiro, um dos grandes escritores portugueses. Para além de uma escrita notável, empenhado nos aspectos sociais e sensível ao sofrimento dos mais pobres e dos explorados, Aquilino Ribeiro teve uma militância anarquista conhecida na sua juventude, permanecendo sempre muito ligado aos princípios libertários.
Segundo os seus biógrafos, e nunca escondido por ele próprio (nomeadamente nos seus livros mais autobiográficos como “Um Escritor Confessa-se”), foi um homem de acção, esteve preso e foi perseguido, enquanto anarquista, e segundo alguns historiadores, poderá ter estado mesmo ligado ao regicídio de D. Carlos. Os métodos de acção directa não lhe eram estranhos.
A partir de 1902 frequentou o Seminário de Beja, de onde foi expulso em 1904, “depois de ter dado uma réplica cortante a uma acusação do Padre Manuel Ançã, um dos dois irmãos que ao tempo dirigiam a instituição” (1)
Três anos depois, em 1907, com 22 anos de idade, “o rebentamento de caixotes de explosivos guardados na sua casa leva à morte de dois correligionários e a que seja encarcerado na esquadra do Caminho Novo, de onde se evade em situações rocambolescas, como se pode ler no volume de memórias antes mencionado”.(1)
Evade-se da prisão a 12 de Janeiro de 1908 e durante a clandestinidade em Lisboa mantém os contactos com os regicidas, refugiado, na Rua Nova do Almada, em frente da Boa Hora.
Homem de acção, depois de estar algum tempo na clandestinidade, foge para Paris, de onde regressa em 1914.
Participa na revolta de 7 de Fevereiro de 1927, em Lisboa. Exila-se em Paris. No fim do ano regressa a Portugal, clandestinamente, participando na revolta de Pinhel. Encarcerado no presídio de Fontelo (Viseu), evade-se e volta a Paris. Em Lisboa é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.
Regressa posteriormente a Portugal, onde morre a 27 de Maio de 1963, quando se comemoravam os 50 anos da sua actividade literária . Na ocasião estavam-lhe a ser feitas homenagens em várias cidades do país. Nessa mesma hora, a Censura comunicava aos jornais não ser mais permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas.
Em 2007, por entre muitos protestos dos sectores mais reaccionários da sociedade portuguesa, a Assembleia da República decidiu homenagear a sua memória e conceder aos seus restos mortais as honras de Panteão Nacional (2). Na frieza da Igreja de Santa Engrácia, se os mortos falassem, Aquilino Ribeiro talvez só pudesse ter uma conversa decente com o velho Guerra Junqueiro, cujos ossos também ali repousam.
Aquilino Ribeiro foi um vulto grande do pensamento social, anarquista militante em várias fases da sua vida, para além de um enorme escritor e intelectual, como o foram aliás grandes vultos da sociedade portuguesa do século passado, muito influenciados pelas ideias libertárias até ao fim das suas vidas: os escritores e jornalistas Ferreira de Castro (1898 – 1974) e Jaime Brasil (1896 – 1966); o filósofo Leonardo Coimbra (1883-1936) ou o cientista Aurélio Quintanilha (1892 – 1987), entre muitos outros.
Útil também a consulta de: http://vidanovazores.blogspot.pt/2007/09/aquilino-ribeiro-com-ou-sem-panteo-o.html
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domingo, 26 de maio de 2013
A LÍNGUA PORTUGUESA É UMA FESTA
No LEV (Literatura em Viagem), texto da comunicação de João Luís Barreto Guimarães (Notas) - Matosinhos, Domingo, 26 de Maio de 2013
Ao
tomar conhecimento do tema proposto para esta mesa, uma vez mais como
já vai sendo hábito em mim, estive para declinar o convite. Não me apraz
muito discorrer sobre este tipo de temas de cariz genérico que
inevitavelmente se apresentam sob a forma de um cliché: o género
literário que vou praticando, a poesia, presta-se pouco a
generalizações; e a língua que utilizo para escrever poesia, a língua
portuguesa, pode ser uma “festa” ou não. Pode ser um autêntico desastre.
Além de que, na minha modesta opinião, todas as línguas podem ser uma
“festa”. Depende muito do uso que fazemos delas. A nossa língua pode ser
uma “festa” aqui, em Portugal, como pode ser no Brasil ou nos países
africanos de língua portuguesa, como pode ser nas mãos de quem quer que
saiba falar ou escrever português num qualquer canto obscuro da
diáspora. Ou do exílio.
Por isso mesmo não vos vou tomar muito tempo. Sinceramente não sei responder à questão de qual deve ser o nosso papel numa política global da língua. Defender o seu correcto uso e preservação, certamente, difundir a sua utilização, promove-la através do Instituto Camões ou outros institutos próprios? Talvez. Sou apenas um falante, um poeta e felizmente que não me cabe nenhuma dessas tarefas. Como também não me parece que o Brasil queira alguma vez que Portugal seja o seu co-piloto como se sugere no convite, o que pressupõe uma situação de dependência formal. Dos escritores brasileiros que conheci nenhum tinha em relação aos colegas portugueses qualquer sentimento de superioridade literária ou institucional. Pelo contrário, ficam fascinados quando conseguem sentir orgulho na utilização da Língua-Mãe.
Mas que orgulho pode ser esse? Para responder a esta questão que eu próprio me coloco, precisaria talvez de definir primeiro a palavra “festa” que dá corpo ao tema desta mesa. “Festa” é uma palavra que, já de si, tem muito pouco a ver com poesia. Ou que pelo menos suscita caminhos divergentes e ambíguos. A poesia jocosa e satírica de Bocage será uma “festa”? Talvez. Trata-se de uma leitura que ainda hoje provoca sorrisos em que a lê. Mas seguramente que leitores haverá para quem a escrita de Maria Gabriela Llansol também é uma “festa”, um arrancar de sorrisos interiores de satisfação. O que define verdadeiramente se a utilização da língua é, ou pode ser, uma “festa”? A ironia, o sarcasmo, o humor na poesia de Alexandre O’Neill, ou a cuidadosa dicção, o aporte de pensamento ou a intelecção na poesia de Herbero Helder?
A poesia faz-se com linguagem, com a língua, e é dessa utilização que em última instância sairá a definição de “festa”. Por isso, para tentar sair airosamente desta cilada que me montaram – e na qual eu aceitei com muito gosto cair - alargarei o conceito de “festa” ao de “gozo”, “deleite”, “prazer” que a língua pode ter do ponto de vista do leitor. E, um pouco abusivamente, estreitarei o conceito de “língua portuguesa” ao de “poesia”, já que é fundamentalmente nesse género literário que me movimento para assim me convidar oficiosamente para esta mesa, agora com um tema próprio e exclusivo próximo deste: “A poesia proporcionará deleite ou prazer?”.
A poesia pode proporcionar prazer – do ponto de vista do leitor – se o poeta observar três ou quatro características na sua escrita.
Em primeiro lugar, se estabelecer com o leitor um jogo de inteligência. Se se estabelecer entre poeta e leitor, um comércio de inteligência, de sapiência, de sabedoria. Se o poeta despertar a inteligência do leitor dentro de um limite de razoabilidade, não o excluindo da experiência do poema, antes convidando-o ao conhecimento, como escrevia Steiner, descendo a um nível de intelecção não tão baixo que transforme o poema numa banalidade fácil mas suficientemente baixo para que o leitor possa ter pé, como numa piscina de várias profundidades, e sinta o apelo de subir. O que se troca entre poeta e leitor ao longo dos versos são alusões, referências, conhecimento, intertextualidades e o poeta pode e deve lançar um verso ao leitor para que este o agarre, e possa no decorrer da leitura sentir a alegria do re-conhecimento, o deleite da identificação, o prazer da universalidade de forma a que sinta um estímulo para trepar, agarrar, querer subir, querer saber mais. Os riscos desta relação oculta entre poeta e leitor no intercâmbio de conhecimento são conhecidos: com a ânsia de cativar mais leitores, o poeta pode sentir-se tentado a descer baixo demais nessa imaginária escala de exigência, e ceder a uma facilidade, a um populismo que prejudique a qualidade do seu escrito.
Por outro lado, como o conhecimento, ao leitor, lhe custa tempo, esforço, horas de leitura (e dinheiro), este pode não conseguir ou não querer agarrar o isco da alusão porque lhe custa, porque não lhe é fácil, simplesmente porque não tem as bases para o fazer. Por isso é importante perceber-se à partida que, infelizmente, num país atrasado como o nosso, o jogo da leitura não é um jogo para muitos mas apenas para alguns – para os que querem – por exemplo, os que estão aqui a assistir a esta palestra, e nesse sentido, aceitar à partida que há um limite de dificuldade abaixo do qual um poeta nunca desce. Isto é válido para um escritor mas também para as outras artes: a música, a pintura, o cinema, etc. Descer abaixo desse nível de facilidade, para um poeta como para outro criador, seria ofender a sua própria arte, ofender a tradição. Para cada um dos poetas, esse limite é condicionado pela sua Visão de Mundo, tanto quanto por outras características que tentarei trazer ao texto, de seguida.
Ou seja: trata-se de um jogo, de um comércio entre leitor e poeta que pressupõe para ambas as partes direitos e deveres. E que, na minha opinião, exclui os extremos absolutos: o populismo mais fácil e o hermetismo total. Um poeta tem o direito de optar por não ser absolutamente hermético na sua escrita para poder ser lido – e comunicar, e partilhar ideias e pensamentos – mas por outro lado só o será para os leitores que cumprirem o dever de fazer um esforço contínuo de aprender a movimentar-se por entre as estrofes e os versos desta arte a que se convencionou chamar poesia, ou seja, àqueles que a determinada altura do seu processo de aprendizagem e leitura passaram a conhecer as convenções dessa mesma arte, isto é, leram os clássicos e sabem reconhecer algumas senão a maior parte das regras da poesia. E que, decididamente, têm hábitos de leitura. Ou seja, à sua maneira e também através da leitura, aspiram a ser cultos. Só assim é possível esse comércio de inteligência, de ideias, de pensamento.
O segundo dever de um poeta é para com a originalidade. Um poeta deve ter brio, mas fundamentalmente ética na sua escrita, quer isto dizer que deve tentar despertar a surpresa nos seus leitores, recorrendo à imaginação e à criatividade. Deve esforçar-se por não publicar mais uma obra igual a tantas outras, não deve perder o espírito de autocrítica ao longo da sua obra poética, de forma a nem se repetir, nem deixar de surpreender os seus leitores. Deve aspirar a ser um dos melhores, escreveu-me um dia José Miguel Silva, exactamente um dos melhores. Deve tentar superar-se. Ao mesmo tempo que tem o direito de descer um degrau até ao nível do quotidiano – onde nunca deverá esquecer o cuidado com a linguagem, com a língua - tem por outro lado o dever de elevar o leitor, de livro para livro, até territórios então menos conhecidos.
Obrigar os leitores a pensar, dar-lhes trabalho, não lhes pôr as coisas fáceis. Obrigá-los a raciocinar, a reflectir, a reagir aos poemas. E dar-lhes como bónus a “festa”, a alegria da surpresa no uso feliz da língua. Alguma coisa química, uma molécula, um neurotransmissor se liberta quando os olhos exteriores levam até ao “olho da mente” de que falava Shakespeare, esse estremeção de novidade e re-conhecimento. Isto só o consegue o poeta que para além de possuir um espírito ético inabalável e uma coragem assinalável, for dono de um espírito de autocrítica fortíssimo. E quem, não tendo pressa, tiver tempo. Não correr atrás da edição. Porque os seus leitores, aqueles que tiveram a amabilidade de o acompanhar até esse estadío da sua obra, são secretamente exigentes e vão querer sempre mais de um autor. Quando sigo um poeta como leitor – e sigo vários – pergunto-me sempre o que será que irá fazer a seguir, se irá conseguir superar-se como poeta. E aqueles que são eticamente briosos, conseguem. Ezra Pound escrevia “make it new”, frase de onde se depreende “otherwise don’t make it at all”. A “festa”, de que fala o título desta mesa, é também esse gozo de perceber que o poema, a crónica, o ensaio, o romance que estamos a ler não só está bem escrito em termos formais, não só é uma boa ideia, como também é algo de novo, algo original, algo que ainda não tinha sido feito, ou dito, daquela maneira.
O terceiro dever, em literatura, é o da profundidade. E compreensivelmente, esta só se adquire com o tempo. É desculpável que quer o leitor, quer o poeta não apreenda, o primeiro, ou não escreva, o segundo, com essa desejável densidade de linguagem numa primeira leitura, ou escrita, de um primeiro livro, mas é desejável que de livro para livro, de leitura para leitura, de ano para ano, de experiência de vida para experiência de vida o vá conseguindo fazer, ou seja, que o poema seja escrito e lido com as diversas camadas que possui. Por mais simples que pareça. A simplicidade é das coisas mais difíceis de atingir em poesia. Mas simplicidade não é, em poesia, antónimo de densidade.
O que se pretende é que em cada leitura ou em cada poema escrito, quer para o leitor quer para o poeta estejam cada vez mais evidentes e presentes o sentido trágico da vida no esplendor da sua complexidade - o enigma, o mistério de que falava Tomas Transtömer. Essa densidade, num poema, atinge-se pela contaminação da poesia pela biologia, a física, a química, a história, a filosofia, a sociologia, a antropologia, as belas artes, as religiões, a mitologia, e principalmente, a própria literatura.
O que isto quer dizer é que nem só de oficina se faz um poema. Um poema contemporâneo vive muito desse magnífico piscar de olho à tradição. Para que a poesia se torne um vicio de conhecimento, de inteligência, de originalidade, de profundidade. Para que se torne uma “festa” para os sentidos, seja em que língua for, em português de Portugal, em português do Brasil, em inglês, alemão, francês, italiano, castelhano, basco, galego ou catalão. Todas as línguas podem ser uma “festa” se se conseguir estabelecer pela qualidade dos textos, um código entre leitor e autor em que cada um oferece ao outro o sublime momento da escrita e da leitura, o máximo que sabe dar: o poeta, desafiando a inteligência do leitor, trazendo-lhe conhecimento, originalidade, e acessibilidade e dificuldade q.b.; o leitor, não desistindo à mais pequena dificuldade, confiando na ética do autor, pesquisando, preparando-se de livro para livro para um enredo cada vez mais denso e profundo. Esse comércio é um intercâmbio de Visões de Mundo, é a linguagem ao serviço do pensamento, e pode, realmente, ser uma “festa”.
Era isto o que tinha para vos dizer hoje. Até à próxima. Até logos.
João Luís Barreto Guimarães
7º Encontro Internacional de Literatura Em Viagem
Matosinhos, 26 de maio de 2013
https://www.facebook.com/notes/jo%C3%A3o-lu%C3%ADs-barreto-guimar%C3%A3es/a-l%C3%ADngua-portuguesa-%C3%A9-uma-festa/10200671311897598
Por isso mesmo não vos vou tomar muito tempo. Sinceramente não sei responder à questão de qual deve ser o nosso papel numa política global da língua. Defender o seu correcto uso e preservação, certamente, difundir a sua utilização, promove-la através do Instituto Camões ou outros institutos próprios? Talvez. Sou apenas um falante, um poeta e felizmente que não me cabe nenhuma dessas tarefas. Como também não me parece que o Brasil queira alguma vez que Portugal seja o seu co-piloto como se sugere no convite, o que pressupõe uma situação de dependência formal. Dos escritores brasileiros que conheci nenhum tinha em relação aos colegas portugueses qualquer sentimento de superioridade literária ou institucional. Pelo contrário, ficam fascinados quando conseguem sentir orgulho na utilização da Língua-Mãe.
Mas que orgulho pode ser esse? Para responder a esta questão que eu próprio me coloco, precisaria talvez de definir primeiro a palavra “festa” que dá corpo ao tema desta mesa. “Festa” é uma palavra que, já de si, tem muito pouco a ver com poesia. Ou que pelo menos suscita caminhos divergentes e ambíguos. A poesia jocosa e satírica de Bocage será uma “festa”? Talvez. Trata-se de uma leitura que ainda hoje provoca sorrisos em que a lê. Mas seguramente que leitores haverá para quem a escrita de Maria Gabriela Llansol também é uma “festa”, um arrancar de sorrisos interiores de satisfação. O que define verdadeiramente se a utilização da língua é, ou pode ser, uma “festa”? A ironia, o sarcasmo, o humor na poesia de Alexandre O’Neill, ou a cuidadosa dicção, o aporte de pensamento ou a intelecção na poesia de Herbero Helder?
A poesia faz-se com linguagem, com a língua, e é dessa utilização que em última instância sairá a definição de “festa”. Por isso, para tentar sair airosamente desta cilada que me montaram – e na qual eu aceitei com muito gosto cair - alargarei o conceito de “festa” ao de “gozo”, “deleite”, “prazer” que a língua pode ter do ponto de vista do leitor. E, um pouco abusivamente, estreitarei o conceito de “língua portuguesa” ao de “poesia”, já que é fundamentalmente nesse género literário que me movimento para assim me convidar oficiosamente para esta mesa, agora com um tema próprio e exclusivo próximo deste: “A poesia proporcionará deleite ou prazer?”.
A poesia pode proporcionar prazer – do ponto de vista do leitor – se o poeta observar três ou quatro características na sua escrita.
Em primeiro lugar, se estabelecer com o leitor um jogo de inteligência. Se se estabelecer entre poeta e leitor, um comércio de inteligência, de sapiência, de sabedoria. Se o poeta despertar a inteligência do leitor dentro de um limite de razoabilidade, não o excluindo da experiência do poema, antes convidando-o ao conhecimento, como escrevia Steiner, descendo a um nível de intelecção não tão baixo que transforme o poema numa banalidade fácil mas suficientemente baixo para que o leitor possa ter pé, como numa piscina de várias profundidades, e sinta o apelo de subir. O que se troca entre poeta e leitor ao longo dos versos são alusões, referências, conhecimento, intertextualidades e o poeta pode e deve lançar um verso ao leitor para que este o agarre, e possa no decorrer da leitura sentir a alegria do re-conhecimento, o deleite da identificação, o prazer da universalidade de forma a que sinta um estímulo para trepar, agarrar, querer subir, querer saber mais. Os riscos desta relação oculta entre poeta e leitor no intercâmbio de conhecimento são conhecidos: com a ânsia de cativar mais leitores, o poeta pode sentir-se tentado a descer baixo demais nessa imaginária escala de exigência, e ceder a uma facilidade, a um populismo que prejudique a qualidade do seu escrito.
Por outro lado, como o conhecimento, ao leitor, lhe custa tempo, esforço, horas de leitura (e dinheiro), este pode não conseguir ou não querer agarrar o isco da alusão porque lhe custa, porque não lhe é fácil, simplesmente porque não tem as bases para o fazer. Por isso é importante perceber-se à partida que, infelizmente, num país atrasado como o nosso, o jogo da leitura não é um jogo para muitos mas apenas para alguns – para os que querem – por exemplo, os que estão aqui a assistir a esta palestra, e nesse sentido, aceitar à partida que há um limite de dificuldade abaixo do qual um poeta nunca desce. Isto é válido para um escritor mas também para as outras artes: a música, a pintura, o cinema, etc. Descer abaixo desse nível de facilidade, para um poeta como para outro criador, seria ofender a sua própria arte, ofender a tradição. Para cada um dos poetas, esse limite é condicionado pela sua Visão de Mundo, tanto quanto por outras características que tentarei trazer ao texto, de seguida.
Ou seja: trata-se de um jogo, de um comércio entre leitor e poeta que pressupõe para ambas as partes direitos e deveres. E que, na minha opinião, exclui os extremos absolutos: o populismo mais fácil e o hermetismo total. Um poeta tem o direito de optar por não ser absolutamente hermético na sua escrita para poder ser lido – e comunicar, e partilhar ideias e pensamentos – mas por outro lado só o será para os leitores que cumprirem o dever de fazer um esforço contínuo de aprender a movimentar-se por entre as estrofes e os versos desta arte a que se convencionou chamar poesia, ou seja, àqueles que a determinada altura do seu processo de aprendizagem e leitura passaram a conhecer as convenções dessa mesma arte, isto é, leram os clássicos e sabem reconhecer algumas senão a maior parte das regras da poesia. E que, decididamente, têm hábitos de leitura. Ou seja, à sua maneira e também através da leitura, aspiram a ser cultos. Só assim é possível esse comércio de inteligência, de ideias, de pensamento.
O segundo dever de um poeta é para com a originalidade. Um poeta deve ter brio, mas fundamentalmente ética na sua escrita, quer isto dizer que deve tentar despertar a surpresa nos seus leitores, recorrendo à imaginação e à criatividade. Deve esforçar-se por não publicar mais uma obra igual a tantas outras, não deve perder o espírito de autocrítica ao longo da sua obra poética, de forma a nem se repetir, nem deixar de surpreender os seus leitores. Deve aspirar a ser um dos melhores, escreveu-me um dia José Miguel Silva, exactamente um dos melhores. Deve tentar superar-se. Ao mesmo tempo que tem o direito de descer um degrau até ao nível do quotidiano – onde nunca deverá esquecer o cuidado com a linguagem, com a língua - tem por outro lado o dever de elevar o leitor, de livro para livro, até territórios então menos conhecidos.
Obrigar os leitores a pensar, dar-lhes trabalho, não lhes pôr as coisas fáceis. Obrigá-los a raciocinar, a reflectir, a reagir aos poemas. E dar-lhes como bónus a “festa”, a alegria da surpresa no uso feliz da língua. Alguma coisa química, uma molécula, um neurotransmissor se liberta quando os olhos exteriores levam até ao “olho da mente” de que falava Shakespeare, esse estremeção de novidade e re-conhecimento. Isto só o consegue o poeta que para além de possuir um espírito ético inabalável e uma coragem assinalável, for dono de um espírito de autocrítica fortíssimo. E quem, não tendo pressa, tiver tempo. Não correr atrás da edição. Porque os seus leitores, aqueles que tiveram a amabilidade de o acompanhar até esse estadío da sua obra, são secretamente exigentes e vão querer sempre mais de um autor. Quando sigo um poeta como leitor – e sigo vários – pergunto-me sempre o que será que irá fazer a seguir, se irá conseguir superar-se como poeta. E aqueles que são eticamente briosos, conseguem. Ezra Pound escrevia “make it new”, frase de onde se depreende “otherwise don’t make it at all”. A “festa”, de que fala o título desta mesa, é também esse gozo de perceber que o poema, a crónica, o ensaio, o romance que estamos a ler não só está bem escrito em termos formais, não só é uma boa ideia, como também é algo de novo, algo original, algo que ainda não tinha sido feito, ou dito, daquela maneira.
O terceiro dever, em literatura, é o da profundidade. E compreensivelmente, esta só se adquire com o tempo. É desculpável que quer o leitor, quer o poeta não apreenda, o primeiro, ou não escreva, o segundo, com essa desejável densidade de linguagem numa primeira leitura, ou escrita, de um primeiro livro, mas é desejável que de livro para livro, de leitura para leitura, de ano para ano, de experiência de vida para experiência de vida o vá conseguindo fazer, ou seja, que o poema seja escrito e lido com as diversas camadas que possui. Por mais simples que pareça. A simplicidade é das coisas mais difíceis de atingir em poesia. Mas simplicidade não é, em poesia, antónimo de densidade.
O que se pretende é que em cada leitura ou em cada poema escrito, quer para o leitor quer para o poeta estejam cada vez mais evidentes e presentes o sentido trágico da vida no esplendor da sua complexidade - o enigma, o mistério de que falava Tomas Transtömer. Essa densidade, num poema, atinge-se pela contaminação da poesia pela biologia, a física, a química, a história, a filosofia, a sociologia, a antropologia, as belas artes, as religiões, a mitologia, e principalmente, a própria literatura.
O que isto quer dizer é que nem só de oficina se faz um poema. Um poema contemporâneo vive muito desse magnífico piscar de olho à tradição. Para que a poesia se torne um vicio de conhecimento, de inteligência, de originalidade, de profundidade. Para que se torne uma “festa” para os sentidos, seja em que língua for, em português de Portugal, em português do Brasil, em inglês, alemão, francês, italiano, castelhano, basco, galego ou catalão. Todas as línguas podem ser uma “festa” se se conseguir estabelecer pela qualidade dos textos, um código entre leitor e autor em que cada um oferece ao outro o sublime momento da escrita e da leitura, o máximo que sabe dar: o poeta, desafiando a inteligência do leitor, trazendo-lhe conhecimento, originalidade, e acessibilidade e dificuldade q.b.; o leitor, não desistindo à mais pequena dificuldade, confiando na ética do autor, pesquisando, preparando-se de livro para livro para um enredo cada vez mais denso e profundo. Esse comércio é um intercâmbio de Visões de Mundo, é a linguagem ao serviço do pensamento, e pode, realmente, ser uma “festa”.
Era isto o que tinha para vos dizer hoje. Até à próxima. Até logos.
João Luís Barreto Guimarães
7º Encontro Internacional de Literatura Em Viagem
Matosinhos, 26 de maio de 2013
https://www.facebook.com/notes/jo%C3%A3o-lu%C3%ADs-barreto-guimar%C3%A3es/a-l%C3%ADngua-portuguesa-%C3%A9-uma-festa/10200671311897598
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Festival Literatura em Viagem presta homenagem a Pessoa, que nem ao Porto terá ido
No "Público" de hoje, artigo de Luís Miguel Queirós
Jerónimo Pizarro abriu os encontros de Matosinhos com uma evocação do poeta cujo Ganges passava na Rua dos Douradores
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quinta-feira, 16 de maio de 2013
Nuno Júdice: Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana
O
poeta português Nuno Júdice foi hoje galardoado com o Prémio Rainha
Sofia de Poesia Iberoamericana, que reconhece o conjunto de uma obra de
um autor vivo, cujo valor literário constitui uma contribuição
relevante ao património cultural Ibero-Americano.
Nuno Júdice, de 64 anos, é autor de 30 livros de poesia, entre os quais A Matéria do Poema e Guia dos Conceitos Básicos, editado em 2010. O autor, que começou a publicar poesia em 1972 – A Noção do Poema e O Pavão Sonoro –, tem escrito também obras de ensaio, teatro e ficção. A Dom Quixote publicou, no passado mês de Fevereiro, a novela A Implosão. Além do universo hispânico, Nuno Júdice tem obras traduzidas em Itália, Inglaterra e França.
Nasceu
na Mexilhoeira Grande, Algarve, formou-se em Filologia Românica pela
Universidade Clássica de Lisboa e é professor associado da Universidade
Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989. Entre 1997 e 2004 desempenhou
as funções de conselheiro cultural e director do Instituto Camões em
Paris. Tem publicado estudos sobre teoria da literatura e literatura
portuguesa.Tem livros traduzidos em várias línguas, destacando-se
Espanha, onde tem uma antologia na colecção Visor de poesia, e França, onde está publicado na colecção Poésie/Gallimard. Dirigiu até 1999 a revista Tabacaria, da Casa Fernando Pessoa. Em 2009, assumiu a direcção da revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste Gulbenkian.
O
escritor já foi galardoado com vários prémios literários, nomeadamente
o Prémio Pen Clube, em 1985, o Prémio Dom Dinis, em 1990, o Prémio da
Associação Portuguesa de Escritores, em 1995, e o Prémio Fernando
Namora, em 2004.
Nasceu na Mexilhoeira Grande, Algarve, formou-se em Filologia Românica pela Universidade Clássica de Lisboa e é professor associado da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989. Entre 1997 e 2004 desempenhou as funções de conselheiro cultural e director do Instituto Camões em Paris. Tem publicado estudos sobre teoria da literatura e literatura portuguesa.Tem livros traduzidos em várias línguas, destacando-se Espanha, onde tem uma antologia na colecção Visor de poesia, e França, onde está publicado na colecção Poésie/Gallimard. Dirigiu até 1999 a revista Tabacaria, da Casa Fernando Pessoa. Em 2009, assumiu a direcção da revista Colóquio/Letras da Fundação Calouste Gulbenkian.
O escritor já foi galardoado com vários prémios literários, nomeadamente o Prémio Pen Clube, em 1985, o Prémio Dom Dinis, em 1990, o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, em 1995, e o Prémio Fernando Namora, em 2004.
O Prémio, atribuído anualmente, e que em 2003 distinguiu Sophia de
Mello Breyner Andresen, é concedido pelo Património Nacional e pela
Universidade de Salamanca, sendo considerado o mais prestigiado deste
género no universo Ibero-americano.
https://www.facebook.com/nunojudice
"O ar está cheio de palavras; e
até as que se perdem contra o fundo
de muros, as que caem no outono
como as folhas das árvores, as
que se afogam no pântano das indecisões,
deixam no ar o seu eco."
Nuno Júdice, in " Poesia Reunida"
Dom Quixote
https://www.facebook.com/nunojudice
"O ar está cheio de palavras; e
até as que se perdem contra o fundo
de muros, as que caem no outono
como as folhas das árvores, as
que se afogam no pântano das indecisões,
deixam no ar o seu eco."
Nuno Júdice, in " Poesia Reunida"
Dom Quixote
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terça-feira, 23 de abril de 2013
FESTEJANDO MAIS UM DIA MUNDIAL DO LIVRO
acrescento que gosto de lembrar-me de mim própria, desde que me consigo lembrar por memórias - não por fotografias - de crescer e viver eu, dois adultos e alguns milhares de amigos. Por força dos acasos da vida habituei-me, pois, a conviver com gente de todas as cores, de todas as estirpes, de todas as idades, de todas as culturas, de todos os credos, essa gente toda que vive por dentro dos livros, que salta e fala e ri e chora e vive e morre e invade a vida de uma pessoa desde que se lembra. Os meus primeiros contactos com o mundo foram, desde sempre, através das histórias e das poesias que os livros contêm. Não vou dizer que os livros são os meus melhores amigos porque não sei se são. Esse corpo do meu corpo que se chama - livro - é mesmo corpo. Faz parte de mim e faz parte daqueles que eu amo. É ser mais do que amigo. É ser, na verdade, célula intrínseca sem a qual eu seria inviável como ser humano.
Nat...uralmente e sem esforço que uma pessoa, um dia, escreve as suas próprias histórias. É natural. Passa a ser genético. Foi o que me aconteceu mal aprendi a escrever e aprendi muito cedo, em casa. Aos cinco anos nasceu a minha primeira história e até hoje, nunca mais parei de as escrever.
Um bom dia mundial do livro para todos. Façamos com que esse objecto continue a existir de um modo palpável e amável. Alimentemos o seu percurso enquanto pudermos. O seu fim está perto. Um dia que não será longínquo - breve na eternidade dos tempos - será mais um objecto classificado numa redoma transparente dos museus.
CRISTINA CARVALHO - 23 de Abril 2013 - Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor
https://www.facebook.com/cristina.carvalho.5815?hc_location=stream
Nat...uralmente e sem esforço que uma pessoa, um dia, escreve as suas próprias histórias. É natural. Passa a ser genético. Foi o que me aconteceu mal aprendi a escrever e aprendi muito cedo, em casa. Aos cinco anos nasceu a minha primeira história e até hoje, nunca mais parei de as escrever.
Um bom dia mundial do livro para todos. Façamos com que esse objecto continue a existir de um modo palpável e amável. Alimentemos o seu percurso enquanto pudermos. O seu fim está perto. Um dia que não será longínquo - breve na eternidade dos tempos - será mais um objecto classificado numa redoma transparente dos museus.
CRISTINA CARVALHO - 23 de Abril 2013 - Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor
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domingo, 7 de abril de 2013
Almada Negreiros nasceu há 120 anos
"As pessoas que mais admiro são aquelas que nunca acabam"
Almada Negreiros, que nasce a 7 de Abril de 1893 e morre a 15 de Junho de 1970, no mesmo quarto onde morrera Fernando Pessoa.
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segunda-feira, 11 de março de 2013
MANUEL DA FONSECA morreu a 11 de Março de 1993
Nasceu em Santiago do Cacém, em 1911, mas cedo foi para Lisboa onde iniciaria a sua atividade literária e onde viria a falecer.
Poeta, romancista, contista e cronista, toda a sua obra é atravessada pelo Alentejo e o seu povo.
Manuel da Fonseca foi um dos maiores escritores do neo-realismo literário português. Fez parte do grupo do Novo Cancioneiro.
Membro do Partido Comunista Português (PCP), Manuel da Fonseca fez parte do grupo do "Novo Cancioneiro" e é considerado por muitos como um dos melhores escritores do neo-realismo português.
A sua obra, de forte intencionalidade de intervenção social e política, relata como poucos a vida dura do Alentejo e dos alentejanos, o povo, a sua vida, as suas misérias e as suas riquezas, exaltando-o e, mesmo, mitificando-o.
Da sua obra como poeta destacam-se Rosa dos Ventos (1940), Planície (1941) e os romances "Cerromaior" (1943), e "Seara de Vento" (1958).
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segunda-feira, 4 de março de 2013
Saramago e "a importância do "não" no curso da História"
O historiador brasileiro Lucas Deschain leu A História do cerco de Lisboa e escreveu no blogue Posfácio um comentário bem interessante. A importância do "não" no curso da História.
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
ILSE LOSA (1913-2006)
http://www.leme.pt/biografias/80mulheres/losa.html
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Para o dossier organizado por Sara Figueiredo Costa contou-se com a colaboração de quatro figuras do panorama musical que, acompanhados de fotografias cedidas pelo Museu da Música Portuguesa, traçam um percurso pelos caminhos trilhados por Giacometti.
Mas a Blimunda está atenta ao futuro, e o futuro passa, segundo algumas opiniões, pelo digital. Acompanhou-se a primeira edição do Congresso ABC da Edição Digital, organizado pela Nave Especial, que junta a editora Pato Lógico à Biodroid, e publicam-se duas entrevistas a André Letria e Gemma Lluch realizadas por Andreia Brites.
A Saramaguiana, ponto de encontro mensal para os leitores de José Saramago, traz um texto de Augusto Rodrigues, Professor da Universidade de Brasília, lido no Congresso Sinfo Saramago, que teve lugar em Lisboa e que terá continuação nos próximos meses.
Boa leitura.
Fundação José Saramago
http://josesaramago.org/383111.html
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
O Meu Pessoa
é a página de facebook dedicada ao Poeta Fernando Pessoa, organizada por Ricardo Belo de Morais.

O endereço: https://www.facebook.com/omeupessoa

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Pessoa - Astrólogo,
uma exposição de Paulo Cardoso para ver na Casa Fernando Pessoa até final de março.
A visitar: o blogue da Casa Fernando Pessoa no endereço
http://mundopessoa.blogs.sapo.pt/
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Richard Zenith, o vencedor do Prémio Pessoa 2012
Tem 56 anos, nasceu em Washington mas vive em Portugal há 25 anos, os últimos cinco já com dupla nacionalidade. Richard Zenith, hoje distinguido com o Prémio Pessoa 2012, tinha sido premiado anteriormente pelo Penn Club, pela Gulbenkian ou pela Academy of American Poets pelos seus trabalhos de tradução de autores como Luís de Camões, Sophia de Mello Breyner ou António Lobo Antunes. E, claro, de Fernando Pessoa de quem Zenith é dos maiores divulgadores. Este ano Richard Zenith foi um dos curadores da exposição Fernando Pessoa, Plural como o Universo, que decorreu entre Fevereiro e Maio na Fundação Calouste Gulbenkian. A mostra, que passou antes pelo Rio de Janeiro e São Paulo, foi um marco na divulgação da vida e obra do autor do Livro do Desassosego.
Iniciativa conjunta do Expresso e da Caixa Geral de Depósitos, o prémio tem o valor de 60 mil euros e visa destacar personalidades da Cultura, Artes ou Ciência cuja obra, num determinado ano, tenha obtido destaque no panorama nacional. O júri foi este ano constituído por Francisco Pinto Balsemão (presidente) e Faria de Oliveira (vice-presidente). É ainda composto por Clara Ferreira Alves, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga, António Barreto, Rui Baião, Rui Vieira Nery, Diogo Lucena, João Lobo Antunes e José Luis Porfírio. Viriato Soromenho Marques integrou, pela primeira vez, o elenco de jurados. (fonte: Expresso)
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Prémio Leya 2012 para Nuno Camarneiro
http://www.publico.pt/cultura/noticia/premio-leya-1577709?fb_action_ids=474441242598337&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline&action_object_map={%22474441242598337%22%3A203437213114770}&action_type_map={%22474441242598337%22%3A%22og.recommends%22}&action_ref_map=[]#/0
O Nuno esteve connosco em março, na semana da leitura! Lembram-se do cartaz feito pelo professor Defim?
O Nuno esteve connosco em março, na semana da leitura! Lembram-se do cartaz feito pelo professor Defim?
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Eugénio de Andrade
Um dia, a Inês Lourenço quis apresentar-me ao Eugénio de Andrade e oferecer-lhe um livro meu. Éramos amigos, ela adorava-o, ele já tinha a sua fundação e marcava muito a vida das pessoas da poesia no Porto. Eu sabia que ele tinha um trato muito antipático. Frequentava as leituras e demais eventos da fundação e sempre me impressionava o modo trombudo como assisti...
a. A sala rodeada de retratos seus, as pessoas todas observando-o na expectativa de saber se dos seus dedos algum pássaro nascia.
Foi uma surpresa que a Inês Lourenço tivesse um livro meu na carteira. Foi uma surpresa que o tirasse da carteira no momento em que dizia ao poeta que queria muito apresentar-lhe um amigo, um jovem que considerava promissor. No mesmo instante, o Eugénio de Andrade tirou-lhe o livro da mão e, ainda mais trombudo, furioso como trovões, disse que estava farto de jovens e que não leria mais nada de ninguém. Disse que, se deixássemos ali aquela merda, aquela merda iria imediatamente para o lixo.A Inês queria encontrar um buraco para se meter. A mim, deu-me um certo ataque de riso. Não achei aquilo nada pessoal, mas fiquei nervoso, sem jeito. Era apenas uma indisposição, sim. Mas, na verdade, nada que não lhe fosse coerente.Hoje, percebo que gosto mais do Eugénio de Andrade do que gostava então. Mesmo antes do episódio antipático. Envelhecer é querer simplificar, tornar cada coisa mais límpida, elementar. Ganhar idade faz com que o Eugénio de Andrade deixe de ser apenas solar e passe a ser a pureza possível. Claro que ele devia angustiar por aspirar à pureza, distante dela como devia estar, como estamos todos. Mas a sua aspiração é o que conta e, no final, assim o identifica.Ler Eugénio de Andrade é passar a alma por água limpa. A sua poesia tem uma propriedade de higienização que nos permite a transcendência em vida, sem mais esquisitice que não o deslumbre.A Assírio & Alvim está a publicar, agora em grande e perfeição, a integral da poesia do Eugénio de Andrade. A cada volume, relemos os clássicos de sempre. Lapidares, como nascidos directamente da natureza do tempo. Como se o tempo fosse pronunciando o que lhe parece, maduro. Um tempo que se pensa, sábio. Alguns dos seus poemas não parecem trabalho de ninguém, são a respiração natural das coisas. A assombrosa manifestação do que demorou a eternidade para ter voz.Sempre vi o Eugénio de Andrade como um poeta ideal para os começos. Receitei os seus livros a todos os jovens, tão irónico parece isso agora, porque estive convencido de que não há melhor para seduzir para a leitura e a escrita. Hoje, percebo que os seus textos são sobretudo para quem quer chegar ao limite das palavras. Ali, onde elas acabam de ser palavras e passam a mexer nos nossos ossos com dedos.
P.S. Uma admirável demonstração de maturidade perante a armadilha do ressentimento. E tem razão - não era pessoal:).
Foi uma surpresa que a Inês Lourenço tivesse um livro meu na carteira. Foi uma surpresa que o tirasse da carteira no momento em que dizia ao poeta que queria muito apresentar-lhe um amigo, um jovem que considerava promissor. No mesmo instante, o Eugénio de Andrade tirou-lhe o livro da mão e, ainda mais trombudo, furioso como trovões, disse que estava farto de jovens e que não leria mais nada de ninguém. Disse que, se deixássemos ali aquela merda, aquela merda iria imediatamente para o lixo.A Inês queria encontrar um buraco para se meter. A mim, deu-me um certo ataque de riso. Não achei aquilo nada pessoal, mas fiquei nervoso, sem jeito. Era apenas uma indisposição, sim. Mas, na verdade, nada que não lhe fosse coerente.Hoje, percebo que gosto mais do Eugénio de Andrade do que gostava então. Mesmo antes do episódio antipático. Envelhecer é querer simplificar, tornar cada coisa mais límpida, elementar. Ganhar idade faz com que o Eugénio de Andrade deixe de ser apenas solar e passe a ser a pureza possível. Claro que ele devia angustiar por aspirar à pureza, distante dela como devia estar, como estamos todos. Mas a sua aspiração é o que conta e, no final, assim o identifica.Ler Eugénio de Andrade é passar a alma por água limpa. A sua poesia tem uma propriedade de higienização que nos permite a transcendência em vida, sem mais esquisitice que não o deslumbre.A Assírio & Alvim está a publicar, agora em grande e perfeição, a integral da poesia do Eugénio de Andrade. A cada volume, relemos os clássicos de sempre. Lapidares, como nascidos directamente da natureza do tempo. Como se o tempo fosse pronunciando o que lhe parece, maduro. Um tempo que se pensa, sábio. Alguns dos seus poemas não parecem trabalho de ninguém, são a respiração natural das coisas. A assombrosa manifestação do que demorou a eternidade para ter voz.Sempre vi o Eugénio de Andrade como um poeta ideal para os começos. Receitei os seus livros a todos os jovens, tão irónico parece isso agora, porque estive convencido de que não há melhor para seduzir para a leitura e a escrita. Hoje, percebo que os seus textos são sobretudo para quem quer chegar ao limite das palavras. Ali, onde elas acabam de ser palavras e passam a mexer nos nossos ossos com dedos.
P.S. Uma admirável demonstração de maturidade perante a armadilha do ressentimento. E tem razão - não era pessoal:).
valter hugo mãe - IN "Pública", 2/dez./2012
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