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terça-feira, 28 de maio de 2013

Escritor Mia Couto ganha Prémio Camões

(actualizado às )

Prémio, que tem o valor de 100 mil euros, foi anunciado ao princípio da noite desta segunda-feira no Rio de Janeiro.
O vencedor do prémio literário mais importante da criação literária da língua portuguesa é o escritor moçambicano autor de livros como Raiz de Orvalho, Terra Sonâmbula e A Confissão da Leoa . É o segundo autor de Moçambique a ser distinguido, depois de José Craveirinha em 1991.
O júri justificou a distinção de Mia Couto tendo em conta a “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”, segundo disse à agência Lusa José Carlos Vasconcelos, um dos jurados.
A obra de Mia Couto, “inicialmente, foi muito valorizada pela criação e inovação verbal, mas tem tido uma cada vez maior solidez na estrutura narrativa e capacidade de transportar para a escrita a oralidade”, acrescentou Vasconcelos. Além disso, conseguiu “passar do local para o global”, numa produção que já conta 30 livros, que tem extravasado as suas fronteiras nacionais e tem “tido um grande reconhecimento da crítica”. Os seus livros estão, de resto, traduzidos em duas dezenas de línguas.
Do júri, que se reuniu durante a tarde desta segunda-feira no Palácio Gustavo Capanema, sede do Centro Internacional do Livro e da Biblioteca Nacional, fizeram também parte, do lado de Portugal, a professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa Clara Crabbé Rocha (filha de Miguel Torga, o primeiro galardoado com o Prémio Camões, em 1989), os brasileiros Alcir Pécora, crítico e professor da Universidade de Campinas, e Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, o escritor e professor universitário moçambicano João Paulo Borges Coelho e o escritor angolano José Eduardo Agualusa.
Também em declaração à Lusa, Mia Couto disse-se "surpreendido e muito feliz" por ter sido distinguido com o 25º. Prémio Camões, num dia que, revelou, não lhe estava a correr de feição. “Recebi a notícia há meia hora, num telefonema que me fizeram do Brasil. Logo hoje, que é um daqueles dias em que a gente pensa: vou jantar, vou deitar-me e quero me apagar do mundo. De repente, apareceu esta chamada telefónica e, obviamente, fiquei muito feliz”, comentou o escritor, sem adiantar as razões.
O editor português de Mia Couto, Zeferino Coelho (Caminho), ficou também “contentíssimo” quando soube da distinção. “Já há muitos anos esperava que lhe dessem o Prémio Camões, finalmente veio”, disse ao PÚBLICO, lembrando que passam agora 30 anos sobre a edição do primeiro livro de Mia Couto em Moçambique, Raiz de Orvalho.
O escritor não virá à Feira do Livro de Lisboa, actualmente a decorrer no Parque Eduardo VII, porque esteve na Feira do Livro de Bogotá, depois foi para o Canadá e só recentemente voltou a Maputo. Zeferino Coelho espera que o autor regresse a Portugal na rentrée, em Setembro ou Outubro.
Nascido em 1955, na Beira, no seio de uma família de emigrantes portugueses, Mia Couto começou por estudar Medicina na Universidade de Lourenço Marques (actual Maputo). Integrou, na sua juventude, o movimento pela independência de Moçambique do colonialismo português. A seguir à independência, na sequência do 25 de Abril de 1974, interrompe os estudos e vira-se para o jornalismo, trabalhando em publicações como A Tribuna, Tempo e Notícias, e também a Agência de Informação de Moçambique (AIM), de que foi director.
Em meados da década de 1980, regressa à universidade para se formar em Biologia. Nessa altura, tinha já publicado, em 1983, o seu primeiro livro de poesia, Raiz de Orvalho.
"O livro surgiu em 1983, numa altura em que a revolução de Moçambique estava em plena pujança e todos nós tínhamos, de uma forma ou de outra, aderido à causa da independência. E a escrita era muito dominada por essa urgência política de mudar o mundo, de criar um homem e uma sociedade nova, tornou-se uma escrita muito panfletária”, comentou Mia Couto em entrevista ao PÚBLICO (20/11/1999), aquando da reedição daquele título pela Caminho.
Em 1986 edita o seu primeiro livro de crónicas, Vozes Anoitecidas, que lhe valeu o prémio da Associação de Escritores Moçambicanos. Mas é com o romance, e nomeadamente com o seu título de estreia neste género, Terra Sonâmbula (1992), que Mia Couto manifesta os primeiros sinais de “desobediência” ao padrão da língua portuguesa, criando fórmulas vocabulares inspiradas da língua oral que irão marcar a sua escrita e impor o seu estilo muito próprio.
“Só quando quis contar histórias é que se me colocou este desafio de deixar entrar a vida e a maneira como o português era remoldado em Moçambique para lhes dar maior força poética. A oralidade não é aquela coisa que se resolve mandando por aí umas brigadas a recolher histórias tradicionais, é muito mais que isso”, disse, na citada entrevista. E acrescentou: “Temos sempre a ideia de que a língua é a grande dama, tem que se falar e escrever bem. A criação poética nasce do erro, da desobediência.”
Foi nesse registo que se sucederam romances, sempre na Caminho, como A Varanda do Frangipani (1996), Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (2002 – que o realizador José Carlos Oliveira haveria de adaptar ao grande ecrã), O Outro Pé da Sereia (2006), Jesusalém (2009), ou A Confissão da Leoa (2012). A propósito dos seus últimos livros, o escritor confessou algum cansaço por a sua obra ser muitas vezes confundida com a de um jogo de linguagem, por causa da quantidade de palavras e expressões “novas” que neles aparecem.
Paralelamente aos romances, Mia Couto continuou a escrever e a editar crónicas e poesia – “Eu sou da poesia”, justificou, numa referência às suas origens literárias.
Na sua carreira, foi também acumulando distinções, como os prémios Vergílio Ferreira (1999, pelo conjunto da obra), Mário António/Fundação Gulbenkian (2001), União Latina de Literaturas Românicas (2007) ou Eduardo Lourenço (2012).
Nas anteriores 24 edições do Prémio Camões, Portugal e Brasil foram distinguidos dez vezes cada, a última das quais, respectivamente, nas figuras de Manuel António Pina (2011) e de Dalton Trevisan (2012). Angola teve, até ao momento, dois escritores citados: Pepetela, em 1997, e José Luandino Vieira, que, em 2006, recusou o prémio. De Moçambique fora já premiado José Craveirinha (1991) e de Cabo Verde Arménio Vieira (2009).
Criado por Portugal e pelo Brasil em 1989, e actualmente com o valor monetário de cem mil euros, este é o principal prémio destinado à literatura em língua portuguesa e consagra anualmente um autor que, pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum. Com Isabel Coutinho

terça-feira, 30 de abril de 2013

100 livros clássicos para download



Uma compilação com 100 obras, entre autores brasileiros e estrangeiros, escolhidas entre os 10 mil títulos disponíveis no portal Domínio Público. A lista, traz desde livros seminais, formadores da cultural ocidental, como “Arte Poética”, de Aristóteles, até o célebre “Ulisses”, de James Joyce, considerado um dos livros mais influentes do século 20, além de clássicos brasileiros e portugueses. Todo o acervo do portal DP é composto por obras em domínio público ou que tiveram seus direitos de divulgação cedidos pelos detentores legais. No Brasil, os direitos autorais duram setenta anos contados de 1° de janeiro do ano subsequente à morte do autor.

http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1076368211083440692#editor/target=post;postID=1162156393211101498http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1076368211083440692#editor/target=post;postID=1162156393211101498

terça-feira, 23 de abril de 2013

SUBTIS MARAVILHAS DOS LIVROS


Os livros hão-de ter vida própria, parece-me, pois só este amável mistério explicará o facto de no caos das minhas estantes sempre se organizarem espontaneamente pequenos comités de racionalidade acidental. Por exemplo, o indiano Siddhartha, de Hermann Hess, foi juntar-se a O Feitiço da Índia, de Miguel Real, e ao parcialmente indiano O Colecionador de Mundos, de Ilija Trojanow. A pequena pilha amontoou-se, porém, sobre Na Patagónia, de Bruce Chatwin, desmoronando, pensei, a bela coincidência que ali se engendrara.

Tinha acabado de constatar esta aparente incongruência quando abri Joseph Anton do também indiano Salman Rushdie, aí constatando que, no dia em que foi sentenciado à morte pelo imã (14 de Fevereiro de 1989), o escritor dos Versículos Satânicos ainda participou, antes de passar à clandestinidade, no funeral de... Bruce Chatwin — assim confirmando de um modo bizarro a rebuscada lição de Siddhartha segundo a qual todas as coisas estão unidas mesmo quando parecem opor-se e contradizer-se.

É provável, de resto, que nunca venha a ser capaz de explicar de modo conveniente isto de os livros serem capazes de gerar subtis maravilhas. Em todo o caso, pude presenciar uma no sábado à noite, quando uma senhora de 84 anos quis tirar uma fotografa comigo no final de uma sessão na FNAC do Gaiashopping, e depois que lhe autografasse um exemplar de Aonde o Vento Me Levar. Dadas as circunstâncias, o caso não teria nada de especial. Eu tinha estado a falar daquele romance e várias pessoas quiseram, no final da sessão, que lhes autografasse os livros. Mas a senhora de 84 anos, segundo depois me explicou a mulher que a acompanhava, é analfabeta e nem sequer iria ser capaz de ler o livro que acabara de comprar. Alguma coisa do que ouvira a tinha, ainda assim, feito comprar o Aonde o Vento Me Levar, enchendo-me de perplexidade.

Agrada-me pensar, por isso, que a esta hora alguém estará a ler em voz alta o livro que eu escrevi, e que a senhora anda com M. viajando por África sem lá ter ido; e que aquela ficção destrambelhada termine por ocupar o lugar que lhe é devido na enorme biblioteca que há-de ser a memória de uma mulher de 84 anos.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Clarice Lispector - "A hora da Estrela"

 
No ano em que passam 35 anos sobre a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A" hora da Estrela" com textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira.

Esta exposição (patente até 23 de junho) está integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal.


http://www.publico.pt/multimedia/video/a-paixao-segundo-clarice-lispector-20130420-140952

sábado, 12 de janeiro de 2013

RUBEM BRAGA, escritor brasileiro, faria hoje 100 anos.


RITA
"No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça dos seus 5 anos.
Seus cabelos castanhos -- a fita azul -- o nariz recto,correcto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco.
Depois, um instante de seriedade: minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar -- sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria -- com pena deste seu pai, que nunca a teve."


crónica de "Os Trovões de Antigamente", ed. Livros do Brasil.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

"Um chá para Alice"

O chapeleiro louco, o gato de Cheshire, a rainha de copas, personagens de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, foram retratados por 21 ilustradores internacionais que integram uma exposição patente até fevereiro na Fundação Calouste Gulbenkian,  em Lisboa.

Partindo do clássico de Lewis Carroll, a exposição “Um Chá para Alice” reúne as ilustrações originais de algumas das mais aclamadas versões contemporâneas deste conto intemporal, numa sugestiva diversidade de estilos, abordagens, sensibilidades, escolas e técnicas de ilustração.Este programa tem por pretexto o facto de se cumprirem 150 anos desde que Charles Dogson - matemático e escritor britânico que assinou com o pseudónimo Lewis Carroll - contou uma história de aventuras, num piquenique, em 1862, a uma menina de dez anos chamada Alice Liddell.

Três anos depois, em 1865, Lewis Carroll publicou "As aventuras de Alice no País das Maravilhas" e, mais tarde, uma sequela - "Alice do outro lado do espelho" -, que se tornaram clássicos da literatura e foram reinterpretados e adaptados dezenas de vezes até à atualidade.

"Um chá para Alice" apresenta uma centena de obras de ilustradores contemporâneos de vários países, como por exemplo, Anthony Browne e Helen Oxenbury e John Vernon Lord  (Reino Unido), Chiara Carrer e Lisa Nanni (Itália) Lisbeth Zwerger (Áustria) Alain Gauthier, Lucie Laroche, Nicole Claveloux e Rebecca Dautremer (França), Dusan Kallay (Eslováquia), Anne Herbauts (Bélgica), Iban Barrenetxea (Espanha), Joanna Concejo (Polónia), Klaus Ensikat (Alemanha), Narges Mohammadi (Irão), Maggie Taylor (EUA), Nelson Cruz (Brasil), Suzy Lee (Coreia do Sul), Vladimir Clavijo (Rússia) e Teresa Lima (Portugal).

A mesa está posta; há inclusivamente um serviço de porcelana comemorativo produzido pela Vista Alegre. 

A fotogaleria pode ser vista em
http://www.gulbenkian.pt/index.php?object=483&article_id=4010langId=1

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Centenário de Jorge Amado

É um dos escritores brasileiros mais conhecidos e lidos, nacional e internacionalmente; contribuiu para a complementação da identidade e do imaginário da Bahia, com as suas histórias ricas, cheias de personagens marcantes e com personalidades fortes, os cenários político, social e religioso do povo e com a afirmação da miscigenação que compõe o Brasil, principalmente no que se refere à relação afro-brasileira.
Jorge Amado foi um grande criador de tipos, de perfis, abordando tramas que misturam romance e comicidade. Isso, somado à sua capacidade descritiva, contribuiu bastante para que as suas produções fossem transpostas para outros meios, como o teatro, o cinema e a televisão. E foi exatamente através do cinema e da TV que algumas das suas obras chegaram ao grande público. Aliás, ele foi o escritor brasileiro mais adaptado para telenovelas: “Gabriela, Cravo e Canela”; “Dona Flor e Seus Dois Maridos”; “Tieta do Agreste”; “Capitães da Areia” e “Tenda dos Milagres”.
 
No Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, poderá visitar-se uma exposição alusiva ao escritor brasileiro.

quarta-feira, 21 de março de 2012

TONINO GUERRA (16 de Março de 1920 - 21 de Março de 2012)

CANTO NONO

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.

in O Mel Assírio e Alvim, 2004 (tradução de Mário Rui de Oliveira)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dickens e os "Tempos Difíceis"

Charles Dickens, de quem se comemora hoje o 200º aniversário, retratou a Londres do contraste da miséria com a opulência trazido pela Revolução Industrial. "Tempos Difíceis", um dos seus romances mais conhecidos, sintetiza no título e no conteúdo essa intensíssima polarização social que desagregou laços e vidas. 200 anos mais tarde, é bom lembrar os escritos de Dickens. E identificar continuidades fundas entre a nossa atualidade e esses hard times.

Charles Dickens´ tribute

http://www.youtube.com/watch?v=9FUowQF6eMc

http://www.youtube.com/watch?v=3AB9poWDeDs&feature=share

Os 200 anos de Charles Dickens também se comemoram em Portugal

Comemora-se esta segunda-feira o bicentenário do nascimento do escritor britânico Charles Dickens (1812-1870). A data, especialmente lembrada no Reino Unido, é assinalada um pouco por todo o mundo e Portugal não é excepção.
Ler mais em:
http://www.publico.pt/Cultura/os-200-anos-de-charles-dickens-tambem-e-comemorado-em-portugal-1532622

Os sinos vão tocar esta segunda-feira em Londres. O príncipe Carlos e a duquesa da Cornualha visitam, de manhã, o Charles Dickens Museum, assinalando a reabertura da casa-museu (a única casa onde Dickens viveu em Londres e que ainda existe). O casal real terá uma leitura privada feita por Gillian Anderson. Ao meio-dia, o museu abre ao público e os primeiros 200 visitantes têm direito a bolo de aniversário.
Assim começam as comemorações de homenagens ao autor de “Oliver Twist”, de “David Copperfield” e de “Great Expectations” no Reino Unido.
Ao mesmo tempo, em Lisboa, na Biblioteca Nacional é inaugurada a exposição biblio-iconográfica sobre a recepção de Charles Dickens em Portugal através da tradução da sua obra que começou a ser publicada em periódico e em volume, a partir de 1839. Na Hemeroteca Municipal é inaugurada a mostra “Dickens nas Colecções das Bibliotecas Municipais de Lisboa”. Às 18h, o cineasta Lauro António dá uma conferência sobre “O Univeso de Charles Dickens no Cinema”, na Biblioteca-Museu, em Lisboa. Mais tarde, às 21h30, a Cinemateca Portuguesa exibe o filme de João Botelho, “Tempos Dificieis, este tempo” (1988), que adapta o romance “Hard Times, for These Times” (1854).
No Porto, além da inauguração, esta segunda-feira, de uma exposição sobre a obra de Charles Dickens na Biblioteca Central da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUO), haverá hoje às 15h, uma mesa redonda dobre “A Actualidade de Dickens”, moderada por Isabel Pires de Lima, com a participação de Jorge Bastos da Silva (FLUP), Luís Araújo (FLUO), Luís Novais (escritor), Maria de Fátima Marinho (FLUP) e Maria de Lurdes Sampaio (FLUP). Para as 18h, no Teatro do Campo Alegre, está marcada uma conversa com o realizador João Botelho e às 18h30 será projectado o seu filme “Tempos Dificieis, este tempo”.
Em Lisboa, a data não será comemorada apenas hoje mas durante todo o mês com o Ciclo de Leituras Dramatizadas de excertos seleccionados de obras de Dickens feitas por estudantes e docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
As celebrações do bicentenário de Dickens ficam ainda marcadas pelo lançamento do jornal Dickens 2012 em papel e numa versão para o iPad. As comemorações estendem-se a mais de 100 países e acontecem durante todo o ano. A programação pode ser consultada aqui
www.dickens2012.org.

Dickens no Google



Bicentenário do Nascimento de Charles Dickens (1812 - 1870)


Faria hoje 200 anos - Charles John Huffam Dickens (Portsmouth, 7 de Fevereiro de 1812 - 9 de Junho de 1870) foi o mais popular dos romancistas da era vitoriana e contribuiu para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa. A fama dos seus romances e contos pode ser comprovada pelo facto de todos os seus livros continuarem a ser editados. Entre os seus maiores clássicos destacam-se "Oliver Twist", "A Christmas Carol" e "David Copperfield".
Dickens era filho de John Dickens e de Elizabeth Barrow. Educado pela sua mãe, tomou o gosto pelos livros. Durante três anos frequentou uma escola particular. Contudo, o seu pai foi preso por dívidas e, ainda adolescente, Dickens teve que trabalhar numa fábrica que produzia graxa para sapatos.
Alguns anos depois, a situação financeira da família melhorou, graças a uma herança recebida pelo pai. Mas a mãe de Dickens não permitiu que ele saísse logo da fábrica, o que fez com que este não a perdoasse por isso. As más condições de trabalho da classe operária tornar-se-iam um dos temas recorrentes da sua obra.
Em 1827, Dickens começou a trabalhar num cartório. Apaixonado pela filha de um banqueiro, Maria Beadnell, suportou a desaprovação do romance pelos pais da namorada.
Em 1832 conseguiu um emprego como repórter no jornal "Morning Chronicle". Passou a publicar crónicas humorísticas sob o pseudónimo de Boz, reunidas mais tarde como "Esboços feitos por Boz". Com isso Dickens ganhou espaço no jornal para apresentar os capítulos de "As Aventuras do Sr. Pickwick", que estabeleceu o seu nome como escritor. A 2 de Abril de 1836 Dickens casou-se com Catherine Hogarth, com quem teve dez filhos.
Dois anos depois começou a divulgar, em folhetins semanais, "Oliver Twist" onde, pela primeira vez, apontava os males sociais da era vitoriana. O romance era ilustrado por Cruikshank.
Em 1838, Dickens escreveu "Vida e Aventura de Nicholas Nickleby", e, depois, "Loja de Antiguidades" (1840), "Barnaby Rudge" (1841) e "Martin Chuzzlewitt" (1843/44), escrito após uma viagem aos Estados Unidos.
Em 1843, publicou o seu mais famoso livro de Natal, "A Christmas Carol", ao qual se seguiriam outros, como "The Chimes" (1844), que escreveu durante uma viagem a Génova e "O Grilo da Lareira" (1845). Em 1849 publicou um de seus mais conhecidos romances, "David Copperfield", inspirado em grande parte, na sua própria vida.
Aos poucos a sua obra tornou-se mais crítica em relação às instituições inglesas. Seguem esta linha os seus livros "Assim São Dombey e Filho" (1847), "A Casa Sombria" (1852) e "Tempos Difíceis". Dickens separou-se da sua mulher em 1858. A causa da separação teria sido a atriz Ellen Ternan, que acompanhou o escritor até ao final dos seus dias, apesar de a união nunca ter sido reconhecida oficialmente.
Dickens escreveu ainda "História de Duas Cidades" (1859), "Grandes Esperanças" (1861) e "Nosso Amigo Comum" (1864). Nos últimos anos da sua vida iniciou o livro "O Mistério de Erwin Drood", mas morreu antes de concluí-lo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

“Para que serve a literatura” ?

http://dererummundi.blogspot.com/2012/01/para-que-serve-literatura-2.html

por Helena Damião

Algumas perguntas formuladas por Antoine Compagnon (na imagem abaixo) que, no presente, se nos impõem em torno da “relevância ou significância” da literatura na vida e, mais especificamente, do seu lugar na escola, “onde os textos documentais invadem o seu espaço, quando não o devoram” (página 20).

Num pequeno, muito pequeno livro, que se pode “ler numa viagem de comboio ou a uma mesa de café” (nota dos coordenadores de edição), este professor de Literatura Francesa Moderna e Contemporânea, entendendo que se deve pensar sobre o assunto, avança várias respostas que me parecem de grande interesse a quem tem responsabilidades educativas.

Inspirando-se em Zola, afirma que “a literatura constitui um exercício de pensamento e experiência de escrita”, que “corresponde a um p
rojecto de conhecimento do homem e do mundo” (página 24).

“Lemos porque, mesmo se ler não é imprescindível para se viver, a vida se torna mais livre, mais clara, mais vasta para aqueles que lêem do que para aqueles que não lêem"
(página 24). "Com a literatura (…) o exemplo substitui a experiência, para inspirar máximas gerais ou, pelo menos, uma conduta em conformidade com tais máximas” (página 31).

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“Ela liberta o indivíduo da sujeição às autoridades, pensavam os filósofos. A literatura é de oposição: ela tem o poder de contestar a submissão ao poder. Enquanto contra-poder, ela revela toda a extensão do seu poder quando é perseguida” (página 32).
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“A literatura, enquanto instrumento de justiça e de tolerância, e a leitura, enquanto experiência de autonomia, contribuem para a liberdade e para a responsabilidade do individuo, valores esses, das Luzes, que presidiram à fundação da escola republicana” (página 31). A “literatura, simultaneamente sintoma e solução do mal-estar na civilização, dota o homem moderno de uma visão que vai além das restrições da vida diária" (página 33).
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“O poeta e o romancista dão-nos a conhecer o que estava em nós, mas que ignorávamos por nos faltarem as palavras” (…) “dispõe do poder (…) de desvendar uma verdade não transcendente, mas latente, presente em potência escondida fora da consciência, imanente, singular e até então inexprimível” (página 35-36).
.
Por tudo isto e muito mais, Compagnon defende que “urge fazer novamente o elogio da literatura, protegê.-la da depreciação, na escola e no mundo” (… ) Enquanto fonte de inspiração, a literatura ajuda o desenvolvimento da nossa personalidade ou à nossa ‘educação sentimental’ (…) Ela permite aceder a uma experiência sensível e a um conhecimento moral (…). Já que o próprio da literatura é a análise das relações sempre particulares que unem as crenças, as emoções, a imaginação e a acção, ela contém um saber insubstituível, circunstanciado e não resumível acerca da natureza humana, um saber das singularidades” (página 31).
.
"A literatura deve, desde logo, ser lida e estudada pelo facto de proporcionar um meio – alguns dirão mesmo o único – de preservar e de transmitir a experiência dos outros, os que estão afastados de nós no espaço e no tempo, ou que divergem de nós pelas condições de vida
.”
.Em suma, remato eu, “a literatura é um exercício de pensamento; a leitura, uma experiência dos possíveis” (…) ela resiste à estupidez não com a violência, mas antes de forma subtil e obstinada" (página 49 e 48).

Referência completa:
- Compagnon, A (2010). Para que serve a literatura? Porto: Deriva Editores.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tomas Tranströmer – Nobel da Literatura 2011



Tomas Tranströmer escreve sobre a morte, a história, a memória e é conhecido pelas suas metáforas. É um poeta que tem uma produção pequena, "não é prolixo", disse no final do anúncio o secretário da Academia, o historiador Peter Englund, embora esteja traduzido em várias línguas. Em Portugal, Tranströmer tem poemas publicados em duas antologias, uma delas chama-se "Vinte e um poetas suecos" (Vega ,1987).

Tomas Tranströmer, 80 anos, psicólogo de formação, sofreu um AVC em 1990. Por isso perdeu as faculdades motoras e não consegue falar. Peter Englund disse à televisão sueca que falou com o laureado e ele se mostrou surpreendido pelo prémio. "Ele estava a escutar música", acrescentou o secretário da Academia. O Prémio Nobel da Literatura 2011 vive numa ilha e depois de ter ficado doente publicou três obras.

Desde 1973 que Tomas Tranströmer, que é o poeta sueco mais traduzido no mundo e recebeu o Prémio Literário do Conselho Nórdico em 1990, era candidato ao Nobel. Há 40 anos que um autor sueco não recebia este prémio.
http://www.publico.pt/Cultura/tomas-transtromer-e-o-premio-nobel-da-literatura--1515270


INSEGURANÇA NACIONAL

O subsecretário se inclina para frente e desenha um X
e as suas orelhas gotejantes balançam como espadas de Dâmocles.

Como uma borboleta sarapintada é invisível contra o chão
e então que o demónio se funde com o jornal aberto.

Um capacete usado por ninguém tomou o poder.
A mãe-tartaruga foge voando debaixo de água.

TOMAS TRANSTRÖMER
tradução inédita de Pedro Calouste

sábado, 9 de julho de 2011

FLIP- Festa Literária Internacional de Paraty

No blogue da editora Cosac Naify podem acompanhar o que tem andado valter hugo mãe a fazer em Paraty
http://editora.cosacnaify.com.br/blog/
Aqui fica o texto que valter hugo mãe pediu para ler no final da sua mesa e que levou às lágrimas o público que estava na Tenda dos Autores.

“Quando eu tinha uns 8 anos, veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam avidamente saber quem casava com quem na ‘Gabriela’.

A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, faziam vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

Um dia a minha irmã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de midas que me transformava num menino de ouro.

Aos dezoito anos, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do ‘Tempo perdido’. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o ‘Tempo perdido’. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido, pois aqui estou, a FLIP fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso.”

valter hugo mãe, Paraty 2011

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Centenário da morte de Tolstoi

No dia 20 de Novembro de 1910, o conde Lev Nikolaievich Tolstoi morre na estação ferroviária de Astapovo, prostrado por uma pneumonia. Tinha 82 anos e era uma das figuras mais célebres da Rússia e da literatura mundial. Autor de obras tão marcantes como Anna Karenina, Sonata a Kreutzer, A Morte de Ivan Illich e Ressurreição, foi sobretudo através do monumental romance Guerra e Paz que Tolstoi passou à posteridade. Cristão, pacifista, anarquista, Tolstoi foi isto tudo e nenhuma destas coisas em estado puro. Uma figura única da literatura universal evocada no CCB durante um dia – aquele em que passam cem anos sobre a sua morte.

http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Literatura/Pages/DIATOLSTOI20NOV2010.aspx

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura 2010

«pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens incisivas da resistência, revolta e derrota dos indivíduos» (Academia Sueca, comunicado de atribuição do prémio)